No ano de 1999 eu entrei pela primeira vez em sala de aula como professor, ano em que completei 19 anos. Junto com a nova "profissão", que foi o que me ajudou a terminar a faculdade, veio aquela vontade de fazer a diferença, fazer uma revolução. Muito à ver com a idade, calor do momento.
Os anos passaram e fui tomando gosto pela educação, pois sentimos que podemos fazer parte de uma transformação social, já que participamos do desenvolvimento de milhares de jovens que irão fazer a diferença no futuro. E mesmo financeiramente ser impraticável lecionar (pelo menos para o estado de Santa Catarina), este sentimento vai servindo de empurrão, onde vamos nos arrastando, nos desgastando, e quase se apagando. Então num certo momento, temos a impressão de que a oportunidade de fazer parte de uma transformação social não passa de utopia, assim como o sistema de ensino. Torna-se então mais importante o lado financeiro, contas à pagar, financiamento, juros (que não tem nada de utopia), e parece difícil não olhar a "profissão" apenas sob este aspecto. E acho isso muito triste, porque não falo só por mim, outros colegas de trabalho compartilham do mesmo sentimento.
Então como houve uma recente mudança de governo, resolvi enviar um e-mail para a secretaria da educação, questionando se haveria alguma mudança positiva na área. Vou copiar e colar a conversa ocorrida:
"Por favor, resgatem o ensino de excelência que nosso estado já possuiu décadas atrás! ensino fundamental, médio, técnico. Laboratórios, pessoas capacitadas, Capacitação para professores.
Não tem novidade, é no mínimo copiar um modelo que já deu certo. Fico na esperança. Obrigado!"
Em seguida veio a resposta:
"O Estado de Santa Catarina ainda ostenta um dos melhores sistema educacionais do Brasil. Está entre os melhores índices de escolarização, professores capacitados e alunos com boa formação.
Temos alguns desafios, naturais da evolução de toda sociedadade. Um exemplo é diminuir o analfabetismo adulto que ainda tmeos 4,4%. Para isso a Secretaria de Educação vai intensificar um grande programa no segundo semestre. Quanto a sua preocupação referente aos professores, temos consciência das metas do nosso governador Raimundo Colombo, de buscar a valorização, o merecimento destes profissionais. Outra prioridade elencada pelo governador são as Escolas de ofício que terão atenção especial, para formar mão de obra qualificada.
Pode ter certeza de que não haverá perda de qualidade no ensino catarinense.
Espero ter atendido e esclarecido suas dúvidas."
Jorn. Benhur Antonio Cruz de Lima
Assessor de Comunicação Social
Secretaria de Estado da Educação
Em réplica a resposta:
"Sr.Benhur, desculpa ocupar seu tempo, eu nem esperava resposta. Meu e-mail foi apenas uma forma de protestar individualmente o atual cenário da educação. Quando eu nasci, as escolas estaduais eram referência no ensino científico e técnico. Estudei em escolas estaduais onde haviam laboratórios de Física, Química, Biologia, todos amplos, tão bem equipados quanto os laboratórios que tive acesso na universidade. Havia até dentro do laboratório sala de monitor e professor com biblioteca específica. Hoje estas salas viraram depósito de paranhos e sucata. Não vi até hoje colégio particular com estrutura nem parecida com que havia "antigamente" na escola
pública. E me desculpe o comentário, mas dizer que Santa Catarina ostenta um dos melhores sistemas educacionais eu só posso concordar se for nivelando por baixo. A valorização do professor hoje já é de menos, falando em salário. Realmente os salários não correspondem a realidade de uma profissão que exige tanto investimento e dedicação, mas o que mais pesa é a falta de investimento em estrutura. A educação não cresce junto com a demanda. O professor tem uma grade curricular exprimida, onde mal consegue atender o "conteudismo" do currículo exigido de cada disciplina, entra numa sala que mal se consegue respirar pelo enorme número de alunos que não tem a mínima vontade de estudar porque não vêem perspectiva nenhuma para o futuro baseado na educação. Não tem salário que pague o desgaste sofrido pelo professor. A escola privada prepara o aluno para o vestibular, a pública prepara para a vida...O que acontece com o aluno que se forma no ensino médio hoje em dia? Meia dúzia entra na faculdade (privada) e através de bolsas e financiamentos, trancos e barrancos consegue se manter. E o resto? Nada sabem o que querem nem o que fazer. Claro, passaram 13 anos dentro de uma sala de aula, aprenderam um monte de conteúdo, mas não tem nenhuma profissão. Então é deprimente saber que hoje nosso estado ostenta um dos melhores sistemas de ensino... imagina o resto! chega de nos nivelarmos por baixo! Este é meu último ano em sala de aula como professor, já que após dez anos lecionando não houve nenhuma oportunidade de atualização ou pós graduações, financeiramente apenas foi possível "sobreviver" e adquirir um carrinho velhinho para ir trabalhar.Quem quer isso para a sua vida. Uma vez, numa conversa com uma turma de 2º ano do ensino médio comentei da importância do estudo na vida, das oportunidades que pode nos trazer. Um aluno levantou o dedo e respondeu: - E o senhor que estudou um monte e está dando aula, do que adiantou estudar? Então veja o ponto de vista que essa geração compartilha da educação. Me formei fazem quatro anos e nem tive tempo de perceber que esse tempo já passou. Hoje fui numa escolha de vaga para ACTs, que vergonha! Um verdadeiro leilão: -Aula de tal disciplina, levanta a mão quem quer. O que é isso!? vergonhoso.
Pronto, desabafei. Mas vamos ver como o novo governo vai tratar deste assunto. Obrigado pela atenção."
Agora leiam a conclusão final da história:
"Concordo com você e entendo sua preocupação e talvez decepção.
Tenho 46 anos e quando eu fiz o fundamental, até o segundo grau (como chamávamos na época) as escolas públicas que sempre estudei em Erechim no RS, era muito boas.
Tínhamos laboratórios de iniciação profissional de 5ª a 8ª séries: técnicas comerciais, industriais (mecânica, tipografia,etc) agrícolas e domésticas. Isto foi muito útil tanto que até hoje sei cozinhas, fazer barra em calça, pregar botões etc. Os laboratórios de ciências amplos nos permitiram fazer experiências de química e entender na prática. O uniforme era obrigatório o que acabava com as desigualdades entre os ricos e pobres (eu estava neste segundo grupo). Era uma economia familiar. Roupas melhores era para usar nos domingos na missa.
E no segundo grau fiz na escola pública já com currículo vocacionado.
Enfim a sociedade muda, muitos querem mais direitos que deveres.
Não sei você tem acompanhado a falta de professores? Ontem assisti na TV um prefeito indignado com a "indústria do atestado médico". Um médico que concede atestados para professores que não quererm ir para sala de aula. Onde está a responsabilidade social? Antes de iniciar o ano letivo apresentam atestados para não ter que trabalhar. Inaceitável."
Mas, enfim, são desafios do serviço público
Jorn. Benhur Antonio Cruz de Lima
Assessor de Comunicação Social
Secretaria de Estado da Educação
... E assim vai caminhando (ou se arrastando?) a humanidade, sem vontade política, com povo que se contenta com pouco....